NA IDADE DA LOBA


DOR E DELÍCIA

                 (Escrito no escuro, no palm-top)

 

Não tenho as datas e os períodos bem especificados, mesmo porque não perguntei detalhes cronológicos. Se soube, certamente esqueci, não registrei, por excesso de emoção, pelo tamanho do envolvimento que tinha com o tema em questão. Porque não dava mesmo!

É sobre minha gestação e parto que finalmente falo. Que finalmente penso. Que finalmente escrevo. Da concepção desta que vos redige, zigoto certo na hora errada, uma penetra na enlutada barriga da minha mãe. É do meu nascimento quase constrangido, de alegrias culpadas, de dívidas de sorrisos.

Quando soube que eu chegaria, fazia apenas alguns meses, acho (eu disse: não tenho as datas), minha mãe havia perdido um filho. Meu irmão chamava-se Cláudio, era um bebê de poucos meses (nunca tive coragem de perguntar exatamente quantos) e morreu nos braços de minha mãe. Não sei exatamente de quê. Só pressinto a cena trágica. Dramática. Sofrida. Depois desta cena veio eu.

Uma mãe jamais supera a dor dessa perda. Ainda mais certeza tenho disso agora, somente agora na idade da loba, por finalmente ter vivido - estar vivendo - a deliciosa experiência de ter nos braços um filho. A natureza não devia permitir uma troca de ordem dessas. A regra é clara: primeiro vão-se as mães e só então, saudosos e satisfeitos de uma vida feliz, deviam ir-se os filhos. A ordem natural das coisas.

Minha mãe é canceriana, tem ascendente em câncer e os olhos azuis-cinza-esverdeados mais claros e tristes que me lembro de ter visto em toda a minha vida. Já vi muitos olhos azuis, de muitos tons e matizes, assim como já vi tantos olhos tristes quanto felizes. Mas nunca vi olhos tão transbordantemente tristes quanto os de minha mãe.

 

 

Minha mãe, essa mulher tão forte em sua infinita fragilidade, quando então soube de minha matrícula em sua barriga para ocupar uma vaga neste planeta, havia há poucos meses decidido que jamais poderia ser feliz novamente. 

(Amo demais a minha mãe, e essa frase é mais do que um esclarecimento: é uma declaração de amor que se repete em cada telefonema que trocamos - que o que têm de escassos têm de sinceros e afetivos.)

Durante toda a gravidez, minha mãe ainda chorava a perda de meu irmão bebê. Até os meus 8 meses de vida (é o que imagino em minhas próprias conclusões - talvez até equivocadas) ela simplesmente não conseguiu sorrir.  Ela me disse algo assim, um dia, me olhando azulclarinhosamente. Olhar daqueles a que só se responde com um abraço modelo apertado e infinito.

Fico pensando, olhando hoje a minha filha de pouco mais de um ano e tentando imaginar. Como deve ter sido difícil tudo isso para ela, principalmente tendo ela a natureza que tem, a fragilidade... aliás, foi daí que surgiu a maior das fragilidades da minha mãe: a depressão.

Será se é por isso que eu busco tanto e tão constantemente a aprovação de todos que me rodeiam? Será se é por isso que de vez em quando me atravessam tristezas profundas e repentinas, sem pé nem cabeça, azulzinhas, cheias de culpa e impotência? Será se é por isso que mimo e brinco e rio e paparico e me dôo e sou alimento, colchão e playground de minha filhotinha?

Um dia, há alguns anos atrás, minha mãe me contou dessa tristeza toda dela durante minha gestação e primeira infância, e que eu ficava muito tempo sozinha deitada no berço, e que eu também era um bebê muito choroso, cheia de manhas... Nesse dia minha mãe pegou na minha mão, olhou bem nos meus olhos cor de erva-mate com os seus tão azuis-cinza e me pediu - simplesmente - perdão! De uma forma tão sincera e sentida que eu jamais conseguiria descrever aqui. Não foi preciso a lágrima, o olhar contrito, o peso, a culpa. Não foi preciso nada mais que o abraço e o silêncio. E então tudo estava dito e perdoado, irrevogavelmente, contundentemente, há anos. Da dor e da delícia, tudo.



Escrito por Clarisse às 17h43
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A toca da loba II.

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Escrito por Clarisse às 19h31
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